Edilza era uma senhora meio desligada do mundo. Saiu da Bahia com duas filhas, deixando suas coisas e veio refazer a vida em uma cidade do Paraná.
Casou-se com um homem bem mais velho do que ela e vivia sob suas ordens. Depois tiveram uma menina que dominava o ambiente, um pouco pelo fato de ser a caçula e depois porque percebeu as fragilidades da mãe.
As meninas mais velhas começaram a ter muitas dificuldades na escola, foi quando fui visitar essa família.
A mãe se apavorou, porque inicialmente não estava entendendo nada. Conversa daqui, conversa de lá e ela foi se situando e entendendo que essa avaliação que estavam por fazer ajudaria na aprendizagem das filhas.
Assim iniciei uma entrevista buscando dados sobre a família, como número de membros, escolaridade, idade, etc. A maior dificuldade foi obter a idade de cada um, porque a própria Edilza não sabia quantos anos tinha e acabou respondendo que estava com 24 anos. Como ela já tinha uma filha adolescente de 14 anos, percebi que poderia haver algum engano e então pedi o registro de nascimento.
Edilza que tinha um sotaque nordestino bem pronunciado se apavorou: -"Meu Deus onde tá esse rézistro?” E foi uma correria para achar esse documento em meio a dezenas de papéis que a família guardava. Remexeram até nas montanhas de roupas espalhadas sobre as camas. Depois de algum tempo ela trouxe o papel de cabeça pra baixo e tentava contra a luz, observar os dados que lá estavam escritos. Foi interrompida por um dos cachorros que a atropelou. Nesse instante caiu um pedaço do registro que já estava meio rasgado e o cão acabou comendo o papel. Por sorte era um pedaço do meio e não comprometeu os dados de que eu precisava. Como ela não sabia ler, me entregou o documento.
Foi quando veio finalmente a confirmação da dúvida, pois ao verificar o registro tive que dar a notícia tão esperada e revelar a verdadeira idade daquela sofrida mulher. Então lhe disse: “pelo registro estou vendo que você não tem 24 anos”. Ela então perguntou -“tenho não”? Não, respondi: “você tem 32 anos”!
Ela colocou uma das mãos sobre a lateral do rosto, olhou para o chão e com olhar de tristeza exclamou: “Meus Deus, como o tempo passa...”
Reflexão: Faça a sua vida acontecer, aproveite todos os seus dias, pois o tempo passa...
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